quarta-feira, junho 01, 2005

A construção do conhecimento

Mote:

"Perspectiva muito utilitária, esta. Nem tudo o que é importante "serve" para alguma coisa. O conhecimento constrói-se ou integra o que já se conhece? decida-se..."
Comentador(a) anónimo(a) à entrada Fun

Glosa:

Eu diria que não pode ser importante se não serve para nada. Não tenho uma visão utilitária das coisas, nem me parece que ela se infira do texto. Era preciso definir o sentido do "servir", mas acho que considerações éticas e/ou estéticas, por exemplo, "servem" para muito. E deviam fazer parte integrante do ensino de cursos na área científica, os de Biologia por maioria de razão. O argumento era no sentido de se ministrar um ensino aberto, que deixasse à interacção professor-aluno-comunidade uma parte importante da selecção dos assuntos a explorar. O modelo actual é o de uma selecção de coisas "importantes" feita unilateralmente pelo professor e transmitida aos alunos. E parece-me que assim se perdem oportunidades de ir ao encontro do interesse dos alunos, correndo o risco de os deixar desmotivados e alienados.

Não me tenho por indeciso, nem me parece que as duas proposições (O conhecimento constrói-se ou integra o que já se conhece?) sejam mutuamente exclusivas. Vejo-as como complementares. Gosto da expressão "construção do conhecimento" porque combina a ideia de conteúdos, factos ou capacidades isoladas, unitárias (os tijolos) que são combinados num processo de ordem superior, que implica juízos de valor acerca dos materiais a usar ou a rejeitar, acerca do modo como eles devem ser integrados, e sobretudo acerca do objectivo de todo o processo. De facto, aprende-se para quê?

Sendo um processo, o conhecimento constrói-se através da integração de factos e conhecimentos anteriores. Uma vez construído, torna-se ele próprio material para a construção de novos conhecimentos. Ou estarei a misturar dois conceitos: o de conhecimento , que se constrói, e o de facto , que se aprende? Hum... tenho que ler o que a wikipedia diz acerca disto.

3 comentários:

LN disse...

A sugestão que parece mais adequada é de clarificar a perspectiva:
1) ou estás a pensar na linha da sociologia do conhecimento e das teorias da educação (e aqui, obviamente perfilhas uma teoria construtivista) OU
2) queres ir para o campo da filosofia analítica e da epistemologia (e essa diferença entre conceitos, desde o construir-integrar ao conhecimento-facto é por demais relevante para ser abordada ligeirinho).

Há alturas em que, para fazer as pontes entre as áreas tem de se desenhar, mais ou menos, as margens...Por isso, respeitar de perto, o rigor e a fidelidade aos termos.

Por exemplo, a pergunta colocada pelo(a) comentador(a) deriva da afirmação que fizeste. Parece-me óbvio - tomaste como iguais o construir e o integrar, quando um é processo e outro é apenas uma estratégia que concorre para o processo.

Anónimo disse...

Ia clarificar mas li o comentário anterior, e corroboro. Foi essa mistura indistinta que suscitou o «então, decida-se». Porque os processos e as estratégias são coisas diferentes.
AC

José N. Azevedo disse...

Muito obrigado pelos esclarecimentos, LN e AC. Em boa hora decidi abrir este blogue! :-)