sábado, junho 11, 2005

Utopia, ou Uma visão do futuro do ensino na Universidade dos Açores


Deixo aqui um texto de trabalho que resolvi escrever para condensar ideias. É que, se é difícil traçar caminhos, é impossível fazê-lo sem uma visão clara do destino a atingir...

Seguindo as orientações clarividentes do Ministério, a UA tem agora um número reduzido de áreas de formação no 1º ciclo, tendo concentrado a sua oferta num núcleo reduzido que corresponde às áreas fortes de formação e investigação dos seus docentes. Já no 2º ciclo a aposta foi em oferecer especializações em áreas em que as especificidades da UA e dos Açores são relevantes, abrindo parcerias nacionais e internacionais que valorizam essas especificidades e alargam a base de recrutamento.
Na sequência de um trabalho em que toda a comunidade docente se empenhou, a UA adoptou uma descrição das competências a atingir pelos seus alunos ao longo do seu tempo de formação. Esta descrição, aliada aos perfis de competências definidos pelas comissões de cada um dos cursos, permitiu estruturar os cursos (e, dentro destes, as disciplinas) em função de objectivos de aprendizagem. Obviamente, as actividades lectivas e a avaliação estão alinhadas com esses objectivos: a cada objectivo de aprendizagem corresponde uma determinada estratégia de leccionação a qual, por sua vez, integra um processo de avaliação que permite acompanhar a progressão do aluno, corrigir os problemas de aprendizagem detectados e comprovar que se alcançaram os objectivos pretendidos. Lições tradicionais, aprendizagem baseada em problemas e estágios em organizações exteriores à universidade complementam-se para tornar a formação uma actividade estimulante e pessoalmente enriquecedora, tanto para alunos como para docentes.
Professores de outras universidades e elementos seleccionados da sociedade civil fazem parte integrante de um processo de avaliação regular de cada curso, continuando um processo de abertura ao exterior que começou com a reestruturação inicial dos cursos, suscitada pelo processo de Bolonha. Mas o trabalho fundamental no campo da avaliação é feito internamente, com o contributo de professores e alunos, produzindo as Direcções de Curso relatórios regulares cujas resoluções são acatadas de forma expedita. Os professores apoiam-se mutuamente no melhoramento das estratégias de aprendizagem, também como resultado das frequentes acções de formação. O Código de Boas Práticas Lectivas serve de guia estruturador das relações professor-aluno, sendo as poucas queixas formais resolvidas prontamente.
É difícil acreditar que há tão pouco tempo atrás a organização por Departamentos interferia com a oferta lectiva, havendo inclusivamente competição entre os departamentos! A organização por áreas disciplinares e grupos de disciplinas é de facto a melhor forma de optimizar os recursos humanos e materiais, ao mesmo tempo que se melhora a oferta lectiva e se promove a interdisciplinaridade. O que parecia impossível no início, sentar na mesma mesa professores de departamentos diferentes para planear actividades lectivas, veio a revelar-se um dos principais factores de melhoramento da qualidade do ensino.

2 comentários:

LN disse...

Uma condensação notável, oscilando entre o futuro e um presente possível!
Fez-me lembrar algumas entradas do Luis Moutinho (www.universitas.blogspot.com) que te recomendo :)
- sobretudo na comparaçãod e cenários que ele anda a fazer.

Duas notas em comentário simples:

1- o "drama" do que se passa nos outros sítios é que se passa por lá. Pode fazer incorrer na célebre tendência (tentação) dos «estrangeirados». Não é possível reproduzir simplesmente, estou convencida - até porque as cabeças podem só se modificar na vivência de processos...
Por mais que aprecie o estilo anglo-saxónico, olho para os registos nacionais e percebo que em cada sítio se vão (hão-de) fazer os caminhos necessários (e característicos), atendendo ao estadio e ao desenvolvimento das pessoas que habitam os sítios. Por isso, as pessoas são relevantes. E o que elas conseguem fazer juntas, num departamento, numa área disciplinar, numa equipa.

2 - O caminho é, plausivelmente, seguir pelos perfis de competências e do curriculum nelas baseado (pois, competence-based-problem), que guiam os processos ensino-aprendizagem, utilizando metodologias activas e participativas, etc, etc...
De partilhas recentes, pude comparar ainda com o «modelo» holandês de formação, nas áreas que me são afins. E do que me salta aos olhos, hoje, olhando para os professores (entre os quais me incluo, pois) é da humildade e da coragem necessárias.
Humildade, para ser facilitador, parceiro de aprendizagem, largar a «cerca» ou a «torre de marfim».
Coragem para tentar, para correr o(s) risco(s), para se mover em novas e desconhecidas direcções...

Conversa longa, mas é costume...
Já agora (por polidez e urbanidade blogger) aviso que vou linkar.

José N. Azevedo disse...

Obrigado pelo elogio e pela indicação do Universitas. Um trabalho muito interessante!

E concordo, evidentemente, que há problemas em transpor coisas de outras realidades. Mas também detesto inventar a roda- para haver progresso é preciso saber adaptar o que existe. Não se vai a lado nenhum partindo sempre do zero.

Mas o problema maior nem está aí: está na imobilidade intelectual do nosso corpo docente, embrulhado no pesado manto do funcionalismo público. Aliás, o texto de Manuel Viegas Abreu (visto aqui)
é certeiro a este respeito:

"As equipas de trabalho científico não podem constituir-se com base em processos de hierarquização de lugares de carreira administrativa em que os professores são envolvidos a pretexto de assegurarem "critérios científicos" nessa hierarquização. Trata-se de um "cruzamento híbrido", de estranha confusão de planos e de um atávico círculo vicioso, com resultados infelizes e infecundos, responsável por tremendos equívocos, gerador de desastrosas consequências para o progresso da investigação e para a renovação do ensino nas Universidades Portuguesas" (itálicos
meus).