domingo, fevereiro 17, 2008

Cerejas...

Assino (e recomendo!) o The Ecologist. É uma das minhas formas de me lembrar que há coisas bem mais importantes do que as urgências entre as quais saltito de dia para dia.


No número de Fevereiro li uma revisão do livro de Richard Heinberg, "Peak Everything: Waking Up to the Century of Decline in Earth's Resources" e fui à Amazon comprá-lo.

Sim, eu sei, tenho que arranjar uma livraria mais verde! Mas esta tem coisas boas, e uma delas são as sugestões que fazem de outros livros nos quais nós podemos estar interessados. E acertam muita vez.

Como agora: sugeriram-me "World Made by Hand", de James H. Kunstler. Não o comprei (ainda?), mas desde a minha descoberta de Robert A. Heinlein que sei a importância dos ficcionistas com uma mensagem: iluminam-nos o labirinto das possibilidades. E a mensagem do que o petróleo significa no nosso modelo de sociedade, junta com a reflexão sobre o que acontecerá quando ele acabar é, literalmente, de importância vital.

Deixo aqui um excerto de um discurso de Kunstler, na Petrocollapse Conference de 2005:

"We face a series of ramifying, self-reinforcing, terrifying breaks from business-as-usual, and we are not prepared. We are not talking about it in the traditional forums - only in the wilderness of the internet.

Mostly we face a crisis of clear thinking which will lead to further crises of authority and legitimacy - of who can be trusted to hold this project of civilization together.

Americans were once a brave and forward-looking people, willing to face the facts, willing to work hard, to acknowledge the common good and contribute to it, willing to make difficult choices. We've become a nation of overfed clowns and crybabies, afraid of the truth, indifferent to the common good, hardly even a common culture, selfish, belligerent, narcissistic whiners seeking every means possible to live outside a reality-based community.

These are the consequences of a value system that puts comfort, convenience, and leisure above all other considerations. These are not enough to hold a civilization together. We've signed off on all other values since the end of World War Two. Our great victory over manifest evil half a century ago was such a triumph that we have effectively - and incrementally - excused ourselves from all other duties, obligations and responsibilities.

Which is exactly why we have come to refer to ourselves as consumers. That's what we call ourselves on TV, in the newspapers, in the legislatures. Consumers. What a degrading label for people who used to be citizens.

Consumers have no duties, obligations, or responsibilities to anything besides their own desire to eat more Cheez Doodles and drink more beer. (...)

At the bottom of the Peak Oil issue is the fear that we're not going to make it.

The Long Emergency looming before us is going to produce a lot of losers. Economic losers. People who will lose jobs, vocations, incomes, possessions, assets - and never get them back. Social losers. People who will lose position, power, advantage. And just plain losers, people who will lose their health and their lives.

There are no magic remedies for what we face, but there are intelligent responses that we can marshal individually and collectively. We will have to do what circumstances require of us.

We are faced with the necessity to downscale, re-scale, right-size, and reorganize all the fundamental activities of daily life: the way we grow food; the way we conduct everyday commerce and the manufacture of things that we need; the way we school our children; the size, shape, and scale of our towns and cities.
"

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Aquacultura "doce"




Um dos meus cavalos de batalha tem sido a aquacultura de água doce, que me parece ter o potencial de providenciar recursos alimentares e económicos a muitas pessoas da Região.
Contra um maior desenvolvimento desta técnica nos Açores estão questões culturais, mas também questões políticas. Culturais porque as pessoas não estão habituadas a consumir peixe de água doce, nem a aquacultura faz parte do quotidiano rural. Políticas porque o potencial da aquacultura dulçaquícola está na pequena exploração familiar, para consumo próprio e/ou local, e isso não desperta o interesse dos grandes grupos económicos.
Por tudo isto, foi interessante descobrir que o Asian Development Bank editou recentemente um livro com o sugestivo título "An Evaluation of Small-Scale Freshwater Rural Aquaculture Development for Poverty Reduction". Nele se diz
Rural aquaculture generates employment and cash income, and provides animal protein and essental nutrients to consumers. It contributes to rural livelihoods, improves food supply, and makes low-cost fish available in domestic markets. Integrating aquaculture into smallholder farming systems can reduce risks to farmers through crop diversification; it also allows nutrient recycling."
A talho de foice, deixo também o registo da Declaração de Bangkok, da NACA (Network of Aquaculture Centres in Asia-Pacific) e da FAO, designada "Aquaculture Development Beyond 2000" e resultante da conferência "Aquaculture Development in the Third Millennium", e saliento o ponto 2.19:
"the practice of aquaculture should be pursued as an integral component of development, contributing towards sustainable livelihoods for poor sectors of the community, promoting human development and enhancing social well-being;"

sábado, novembro 24, 2007

Privatização

De um texto de Vitorino Magalhães Godinho, "O respeito pela pluralidade" (Jornal de Letras, Artes e Ideias, 968), e pensando nas propostas de privatização da gestão das áreas protegidas (v. tb. entrevista do presidente do ICN):


"Dentro da mundialização - inevitável - temos de abrir diferentes caminhos, mas em que os cidadãos segurem no leme e não sejam esmagados pelas redes dos mamutes. Em que o público não desapareça engolido pelo privado, com o pretexto da nunca provada maior rentabilidade dos interesses sobre o bem comum.
[...] Para tal, dada a desconstrução sistemática a que tem sido submetido o Estado, impõe-se reconstruí-lo em novos moldes, como complexo coordenado de sistemas organizacionais que assegurem o equipamento social de base e um conjunto de serviços públicos essenciais à sociedade e, logo, às pessoas. Os insistentes apelos a uma imaginária sociedade civil ocultam que o desaparecimento da organização pública por incontida privatização forma o leque dos problemas centrais do nosso tempo, juntamento com a violência e a degradação social, o surto do fanatismo e a desistência da democracia."

segunda-feira, novembro 05, 2007

The Unnatural History of the Sea



Nao lia um livro assim desde o "Guns, Germs and Steel", de Jared Diamond. Tem uma visão histórica integrada com a perspectiva ambiental e, sobretudo, estilhaça ideias feitas e preconceitos. O que mais me impressionou nos dois livros foi de facto o dar a ver de ambos: explicações para factos ou acontecimentos de que tinha pouca consciencia e que de repente fazem muito sentido. Gosto de livros que me fazem "clique"!
Falo de "The Unnatural History of the Sea", de Callum Roberts. Um livro deprimente, como o podem ser os livros que examinam abertamente o impacto humano sobre o planeta (ver vídeo). O primeiro mito estilhaçado (e falo do alto da minha ingenuidade de biólogo há 30 anos!) foi o de que, em comparação com a terra, o mar está bem conservado. É daquelas ideias que se vão alimentando, apesar de alarmes esporádicos de que as coisas não vão bem. Pois agora tomei consciência de que as coisas não vão nada bem. O segundo mito é o de que os impactos humanos nos oceanos são recentes: vêm-me à cabeça o Exxon Valdez, Minamata, as redes derivantes, a caça à baleia (esta última até com o consolo de ser uma história que apesar das incertezas, parecer ter acabado bem). Pois não: as histórias tristes começaram há mais de 300 anos!...
Durante 334 páginas Callum Roberts desfia o rosário da hecatombe maritima.
Fiquei a saber como os piratas da Caraíbas se abasteciam de tartarugas, manatins e focas monge até extinguirem estas últimas e deixarem as populações das restantes reduzidas a meros farrapos da rica tapeçaria que estendiam nesses arquipélagos tropicais.
Li que a baleação foi a primeira indústria global, e impressionei-me com a extensão e a intensidade da caça às baleias, desde as operações costeiras dos bascos em tempos medievais, afastando-se da costa à medida que as populações iam sendo reduzidas até que, no dealbar da industrialização, frotas impressionantes de navios fábrica percorreram sistematicamente todos os cantos dos oceanos, extinguindo populações atrás de populações, passando das espécies mais fáceis de capturar (a que ainda hoje chamamos "right whale") para os rorquais, que requeriam barcos rápidos e arpões com ponta explosiva.
Fiquei a saber que a diminuição dos stocks das populações de focas e leões marinhos no hemisfério norte pode estar ligada a uma alteração dos hábitos alimentares das orcas, privadas das suas presas favoritas: as baleias.
No campo destes danos ecológicos colaterais, relembrei a relação entre a caça desenfreada às lontras no Pacífico e o desaparecimento das florestas de laminárias, consumidas pelos ouriços subitamente livres dos seus predadores (uma história que tem mais de 2500 anos...). Aprendi que, sem as laminárias de que se alimentavam, a população de manatins de Steller, que se estendia do Japão à Califórnia, ficou reduzida a uma pequena população na ilha de Bering, a qual os marinheiros da expedição do próprio Steller e os caçadores de lontras que se lhes seguiram conseguiram extinguir em menos de 30 anos.
Recordei os protestos contra os arrastões que ouvi em pequeno ao meu avô e aos meus tios, pescadores artesanais da Ria Formosa, ao aperceber-me do terrível impacto deste tipo de pesca nos fundos de todas as plataformas costeiras e estuários do mundo, das alterações ecológicas que provocam e de como estas podem ser irreversíveis.
Apreendi o conceito das "shifting baselines", a forma como a nossa pouca percepção da abundância do passado nos faz aceitar o estado miserável actual como natural. E vieram-me à memória as palavras de Gaspar Frutuoso, escrevendo no século XVI sobre a abundância de búzios, lapas e caranguejos na costa de Santa Maria: "...é coisa de espanto a multidão deste marisco."
Pelo caminho li uma crítica arrasante à Política Comum de Pescas europeia, pela qual já eu próprio não dava grande coisa...
Depois de 23 capítulos tão deprimentes como verdadeiros, o autor dá-nos finalmente no capítulo 24 a sua visão do que é preciso fazer para restaurar os oceanos a algo próximo da sua primitiva grandeza. São 6 medidas apenas, que se escrevem em outras tantas linhas, mas que correspondem a uma completa re-invenção da gestão das pescas.
  1. Reduzir a capacidade de pesca actual;
  2. Deixar a gestão das pescas ao cuidado de organismos independentes, que se baseiem unicamente em pareceres científicos;
  3. Eliminar o sistema de quotas, substituindo-o por limites ao local, ao tempo e aos métodos de pesca;
  4. Obrigar os pescadores a desembarcar o que pescam;
  5. Usar tecnologia de pesca avançada de forma a reduzir as capturas acessórias;
  6. Banir ou restringir fortemente as artes de pesca mais daninhas.
Os últimos dois capítulos apresentam a segunda ideia forte do livro: a necessidade de constituir reservas integrais que cubram uma área substancial do oceano, entre 20 a 30 % de cada tipo de habitat! Esta é a única forma de garantir espaços em que a natureza possa respirar, e de que os nossos filhos possam voltar a ter visões como as de Gaspar Frutuoso.

Callum está optimista. Eu não.