domingo, dezembro 11, 2005

Pinter



Li o discurso de Harold Pinter na cerimónia de atribuição do Nobel. Estou agora a ver o respectivo video.

As imagens de violência de estado dirigidas contra inocentes, conjuradas por Pinter em texto e em prosa, fizeram-me estremecer. Como nós, essas pessoas viviam as suas vidas, cuidavam dos seus filhos, trabalhavam, estudavam. O seu mundo, no entanto, foi destruído por razões que lhes eram estranhas, por decisões tomadas em lugares muito distantes, em nome de princípios frios de estratégia e de finanças.

Nós vivemos as nossas vidas, cuidamos dos nossos filhos, trabalhamos, estudamos. O que nos protege? O nosso silêncio, a nossa ignorância da "tapeçaria de mentiras" em que vivemos? E, nesse caso, até quando?

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Roger Schank


Leio sempre com prazer os textos de R. Schank na sua coluna Educational Outrage. No contexto da reorganização de Bolonha, é refrescante ler a sua lista das acções que as universidades deveriam tomar se quisessem de facto que as pessoas acreditassem que a educação dos estudantes é a sua primeira prioridade:

  1. Todos os candidatos deveriam ser admitidos. (A única limitação deveria ser a do espaço)
  2. Os professores não deveriam determinar o curriculo. "Professors are enamored with theories and ideas precisely because that is what they deal with all day. If you want practical real world skills, you won’t learn them from them."
  3. As disciplinas não deveriam ter uma duração fixa, e não deveriam ser frequentadas em paralelo. "And how long should a course take? As long as it takes to learn whatever it is the student is trying to learn how to do."
  4. O ensino devia ter lugar quando fosse necessário.
  5. As disciplinas deveriam ser dominadas por projectos e não por lições (lectures). "projects work well in courses where the end result is a student who has learned to actually do something. This should be true of all fields not just ones that are obviously about doing."
  6. Os curricula deviam ser desenhados como preparação para o emprego. "Let students prepare for one or many jobs that interest them. Stop all the academic pretense."
  7. Ter sucesso na escola não deveria significar ganhar uma competição. "As long as school is viewed as a competition, we will have players of the game who are good at the game but learn very little."
  8. A licenciatura não deveria ser determinada pelo total de créditos acumulados. "You should graduate when you can demonstrate some abilities that you didn’t have before you started school."
  9. As propinas deveriam ser baratas.
  10. O campus deveria ser sério, i.e. não relacionado com festas, bebida, futebol, praxes ou actividades extracurriculares.

domingo, novembro 27, 2005

Técnicas pedagógicas


De facto as pessoas habituam-se a tudo. Até a ver os seus sonhos morrerem debaixo do peso dos testes, exames, prepotências, decoranços e cábulas. Até não restar mais que um diploma...

segunda-feira, novembro 14, 2005

Make poverty history

Há ideias feitas, que se aceitam acriticamente, e que no entanto têm um poder destrutivo imenso. Algumas delas foram mesmo criadas para isso mesmo. Veja-se por exemplo a ideia de que pobreza é não ter dinheiro. Claro que não é. Antes de haver dinheiro, toda a gente era pobre? Num mundo em que tudo é visto em termos comerciais, em que tudo se compra, as pessoas não percebem que a definição fundamental de pobreza é a incapacidade de se bastar a si próprio. E que na esmagadora maioria dos casos, essa incapacidade resulta de injustiças contemporâneas ou passadas. A pobreza em África, por exemplo, não derivará da expropriação a que o continente foi exposto desde há séculos?

Li só hoje o artigo de David Rieff na Prospect de Julho (v. artigo resumido no Guardian), em que ele argumenta que o LiveAid complicou a situação política que se vivia na Etiópia na altura, tendo sido aproveitado para dar cobertura a um projecto estalinista de recolocação forçada e assassínios em massa que terá morto mais pessoas do que aquelas que foram salvas pela ajuda "humanitária".

E fico a pensar que era bom que este novo movimento, cheio naturalmente de boas intenções, não passasse disso mesmo. Porque se é o actual paradigma do "desenvolvimento" que cria a pobreza, será possível erradicá-la sem mudar os pressupostos?

domingo, novembro 13, 2005

O porto da Calheta

Foto: Álvaro Saraiva

Fará alguma confusão aos mais novos, mas o parque de estacionamento da Calheta, ou seja o recinto da festa de São Pedro, ou seja ainda a localização do futuro casino de São Miguel, já foram um porto de pesca artesanal, uma enseada abrigada onde eu nunca mergulhei mas onde muita vez fui buscar água salgada ou fazer triagens de material recém-recolhido. Ver mais fotos aqui.