segunda-feira, julho 25, 2005

Liberdade


Jean Charles Menezes, † Londres, 22 Julho 2005

They that can give up essential liberty to obtain a little temporary safety deserve neither liberty nor safety.

Benjamin Franklin

terça-feira, julho 19, 2005

Irracionalidades



Estamos ainda muito longe de eliminar as irracionalidades no nosso sistema de ensino superior. Tudo está disfuncional e desorganizado, começando no esquema de financiamento, passando pelo numerus clausus e pelo estatuto da carreira docente e acabando na (des)estruturação pedagógica dos cursos. Muitos docentes e gestores universitários estão alheados das causas profundas da actual crise, e muitos dos que têm alguma ideia dos problemas estão enredados nas malhas do imobilismo próprio e alheio.

Não admira pois encontrar comentários como os de João Vasconcelos Costa, no seu último artigo, de que tenho o gosto de transcrever:

A Universidade dos Açores abriu uma nova licenciatura em Biotecnologia. Disto sei eu alguma coisa. É um exemplo típico de uma actividade interdisciplinar, a nível de pós-graduação, integrando em equipa biólogos, químicos, engenheiros, informáticos. Quem pensa que pode haver hoje uma licenciatura em biotecnologia, ainda por cima nos Açores, anda nas nuvens acerca da biotecnologia.


Outra nova licenciatura da UAç é em Ecoturismo, para 20 alunos. Num ano, saturam o mercado de emprego. Ao mesmo tempo, abrem também uma nova licenciatura em Património Cultural. Só falta também, nesta licenciatura, um ramo de restauro. Porque não ainda mais especializada, em ecoturismo e património cultural da minha querida freguesia da Ribeira Seca, a tal em que, em tempos idos, se deixava a chave na porta para os vizinhos poderem entrar?

Aparecerem ofertas deste género (e alunos que as frequentam), como JVC bem sabe, é sintoma da irracionalidade instalada no sistema. Eu até estive envolvido na génese da licenciatura em Ecoturismo, embora numa perspectiva de damage control, e não me sinto particularmente satisfeito com a minha contribuição. O que me aflige é encontrar a ponta da meada. Por onde começa a reforma? Pelo Ministério? Pelos reitores? Pelos departamentos? Individualmente? Ou precisamos de um Alexandre?

segunda-feira, julho 11, 2005

Nuclear

O ano passado descobri que o James Lovelock via no nuclear a saída para o problema do aquecimento global. Justificando com base na necessidade urgente de abandonar os combustíveis fósseis, Lovelock diz que os medos da radiação são irracionais e que a energia nuclear é a mais segura de todas. Achei piada ao argumento, mas fiquei com uma pergunta sem resposta: "E o destino final do material radioactivo? Se já neste momento é problemático, o que aconteceria se a energia nuclear fosse adoptada em grande escala?"

Agora li uma série de artigos por Peter Bunyard no sítio do Institute of Science in Society sobre este tema. Deixo aqui o registo, para contrabalançar. Num primeiro artigo, este autor lança argumentos económicos (a energia é muito cara, porque pesadamente subsidiada) e de segurança (o plutónio pode ser utilizada por terroristas, e há sempre o risco de fugas e acidentes); no segundo, argumenta que a quantidade de urânio é limitada e que, se contabilizarmos a energia necessária para a respectiva extracção e enriquecimento (onde são utilizados combustíveis fósseis), as centrais térmicas produzem menos CO2 por kW.

Bunyard afirma que nos EUA não houve encomendas de novos reactores nucleares civis desde 1973. Faz pensar...

Vacas loucas




Os excelentes cartoons de Mr. Fish podem ser vistos aqui e aqui.


Infelizmente não vai acontecer. Se alguma coisa mudar na nossa relação com a natureza terá que vir das nossas mãos. E, pelo caminho por que vamos, não tenho muita esperança. Note-se que a única resposta positiva dada pelos G8 às solicitações do movimento Make Poverty History (para ir buscar uma coisa muito mediática) teve a ver com o fornecimento de medicamentos para a sida. Sou só eu a notar algum padrão aqui?

quinta-feira, julho 07, 2005

Sinto-me só como um seixo de praia

Sinto-me só como um seixo de praia
Vivendo à busca no cristal das ondas,
Não sei se sou o que não sou. Pressinto
Que a maré vai morar no fundo d'alma.

Calo-me sempre se te escuto vindo
Marulho de incerteza e de agonia;
Há crenças deslizando nos meus traços,
Molhando a estátua do meu sonho antigo.

Declino-me nas frases dos rochedos
Nas pérolas de som do inesquecer
Na incrível sombra da montanha adulta.

E ao me curvar ao peso da memória,
Descubro meu reflexo obscuro
Num soneto de espumas inexatas.

Vinicius de Moraes